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“O Paraguai pode ser a ponte entre a ASEAN e o Mercosul”

Bruno Jaén-Bohorques analisa como o acordo Mercosul–Singapura pode abrir oportunidades para o Paraguai em logística, energia, tecnologia, alimentos, maquila e investimentos.

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Entrevista · 21 de setembro de 2026 · Radar Inversión

O acordo entre o Mercosul e Singapura abre um novo caminho para o investimento, o comércio e a integração com o Sudeste Asiático. Bruno Jaén-Bohorques, representante no Paraguai da Câmara de Comércio MERCOSUL–ASEAN e presidente da Associação de Empreendedores do Paraguai (ASEPY), analisa as oportunidades para o país e as condições necessárias para transformá-las em investimentos e negócios concretos.

“O Paraguai tem condições de ser a ponte entre a ASEAN e o Mercosul.”

Bruno Jaén-Bohorques

Advogado e sócio-fundador da LEXIN Legal Advisors. Representa no Paraguai a Câmara de Comércio MERCOSUL–ASEAN e preside a Associação de Empreendedores do Paraguai (ASEPY). Sua trajetória inclui funções nos ministérios da Indústria e Comércio e da Fazenda, representação perante o BID e experiência diplomática como ministro da Embaixada do Paraguai em Buenos Aires, além de atividades de assessoria relacionadas à Presidência da República e a Itaipu.


Entrevista

1. Em sua entrevista ao Loop, você afirmou que o principal desafio após o acordo Mercosul–Singapura é a falta de conhecimento mútuo. Na perspectiva do Paraguai, o que deve ser feito agora para transformar esse acordo em investimentos e negócios concretos?

O acordo é uma ferramenta, mas, sozinho, não gera negócios. Para convertê-lo em resultados concretos, precisamos trabalhar ativamente na aproximação dos dois mercados.

O Paraguai precisa apresentar em Singapura uma história clara e convincente: o que produzimos, quais são nossos setores competitivos, que vantagens oferecemos e por que uma empresa asiática deveria se instalar aqui. Isso exige missões comerciais nos dois sentidos, rodadas de negócios setoriais, informações em inglês, projetos concretos de investimento e presença institucional e empresarial mais permanente em Singapura.

Também precisamos identificar empresas singapurianas que já estejam buscando expandir suas operações para a América Latina e apresentar oportunidades específicas, com números, parceiros locais e segurança jurídica. Na Ásia, as relações comerciais são construídas com tempo, confiança e continuidade. Uma visita isolada não basta: é necessário manter uma agenda permanente.

O primeiro objetivo deveria ser conquistar alguns casos de sucesso e transformá-los em exemplos. Um primeiro investimento singapuriano bem-sucedido pode abrir caminho para muitos outros.

2. Você mencionou que uma das primeiras oportunidades poderia estar em logística e portos. Por que o Paraguai pode ser atraente para investidores de Singapura nesse setor e quais vantagens concretas temos em relação a outros países da região?

Singapura é um dos principais centros logísticos, portuários e financeiros do mundo. O Paraguai, embora não tenha acesso direto ao mar, possui uma extraordinária tradição fluvial e uma das maiores frotas de barcaças da região. A Hidrovia Paraguai–Paraná conecta nossa produção aos portos do Atlântico e constitui uma infraestrutura estratégica para o comércio regional.

Nossa principal vantagem é a localização: estamos no centro da América do Sul, entre Brasil, Argentina e Bolívia. O Paraguai pode funcionar como centro de distribuição, armazenagem, transformação e reexportação para mercados muito maiores.

Além disso, contamos com custos competitivos, abundante energia elétrica renovável, regimes como a maquila, carga tributária relativamente baixa e experiência privada em navegação e operação portuária. Para uma empresa de Singapura, isso abre oportunidades em portos, terminais intermodais, armazenagem, tecnologia logística, rastreabilidade, digitalização aduaneira e financiamento de infraestrutura.

A oportunidade não consiste em competir com os grandes portos marítimos do Brasil ou da Argentina, mas em nos posicionarmos como polo fluvial e industrial que conecta o coração produtivo do continente a esses portos.

3. Além da logística e dos portos, em quais setores você vê hoje as maiores oportunidades para atrair investimentos de Singapura e do Sudeste Asiático para o Paraguai?

Vejo oportunidades especialmente em cinco áreas.

A primeira é a indústria alimentícia. O Paraguai tem grande capacidade de produção de carne, soja, milho, arroz, gergelim, chia, estévia, erva-mate e outros alimentos. Singapura importa grande parte do que consome e procura fornecedores confiáveis, rastreabilidade e segurança alimentar. A oportunidade não está apenas em exportar matérias-primas, mas também em industrializá-las e agregar valor no Paraguai.

A segunda é a energia. Nossa matriz elétrica renovável e competitiva pode atrair investimentos em indústrias eletrointensivas, centros de dados, armazenamento de energia, mobilidade elétrica e produção de combustíveis verdes.

A terceira é a tecnologia. Singapura tem experiência em fintechs, inteligência artificial, cibersegurança, cidades inteligentes e digitalização de serviços públicos. O Paraguai pode oferecer profissionais jovens, custos competitivos e acesso ao mercado regional.

A quarta é a manufatura sob o regime de maquila. Uma empresa asiática pode produzir ou montar produtos no Paraguai e utilizar o país como plataforma de abastecimento ao Mercosul.

Por fim, há espaço importante em infraestrutura, tecnologia agrícola, biotecnologia, gestão da água, economia florestal e financiamento de projetos. Em todos esses setores, o Paraguai oferece recursos e oportunidades de crescimento, enquanto Singapura pode contribuir com capital, tecnologia, gestão e acesso a redes internacionais.

4. Você também sugeriu que as micro, pequenas e médias empresas deveriam começar a olhar além do mercado local. Que oportunidades reais o acordo abre para uma empresa paraguaia de pequeno ou médio porte e o que ela deve fazer para aproveitá-las?

Para uma micro, pequena ou média empresa paraguaia, o acordo não significa que ela começará automaticamente a exportar para Singapura. Ele reduz obstáculos e cria condições mais favoráveis para entrar nesse mercado.

Há oportunidades para produtos diferenciados, como alimentos saudáveis, produtos orgânicos, estévia, chia, gergelim, erva-mate, alimentos processados, produtos florestais e manufaturas especializadas. Também existem oportunidades em serviços digitais, como software, design, consultoria, serviços empresariais e soluções tecnológicas.

Além disso, Singapura não deve ser vista apenas como um mercado de aproximadamente seis milhões de consumidores, mas como um centro regional de acesso a distribuidores, investidores e redes comerciais de todo o Sudeste Asiático.

Para aproveitar a oportunidade, a empresa deve fazer quatro coisas: identificar um nicho concreto; adaptar seu produto às normas sanitárias, técnicas e de apresentação do mercado asiático; alcançar volume e continuidade de fornecimento; e encontrar um importador ou parceiro comercial confiável.

Muitas pequenas empresas não conseguirão fazer isso sozinhas. Por isso, serão fundamentais os consórcios de exportação, a cooperação entre empresas e o apoio de associações e instituições públicas. Para competir internacionalmente, é preciso passar da lógica de vender o que produzimos para produzir o que o mercado internacional demanda.

5. Olhando para os próximos anos, o acordo com Singapura pode abrir caminho para uma relação econômica muito mais ampla entre Paraguai e ASEAN? O que o Paraguai deve fazer agora para se posicionar como plataforma de entrada no Mercosul para empresas do Sudeste Asiático?

Sim. Singapura pode ser a porta de entrada do Paraguai no Sudeste Asiático e, ao mesmo tempo, o Paraguai pode se tornar uma plataforma de acesso ao Mercosul para as empresas da região.

Mas precisamos compreender que o acordo é com Singapura e que o acesso ao restante da ASEAN deverá ser construído a partir dessa relação. Singapura é um centro financeiro, tecnológico e logístico de onde operam milhares de empresas asiáticas e internacionais. Uma relação sólida com Singapura pode nos conectar à Indonésia, ao Vietnã, à Malásia, à Tailândia e a outros mercados em forte crescimento.

Para se posicionar, o Paraguai precisa definir uma estratégia de longo prazo. Isso inclui promover projetos concretos, fortalecer a REDIEX e o serviço diplomático na Ásia, facilitar a instalação de empresas estrangeiras, melhorar a conectividade e a infraestrutura logística, oferecer regras claras e formar profissionais com conhecimentos de inglês e da cultura empresarial asiática.

Também precisamos construir uma proposta nacional: instalar-se no Paraguai para produzir com energia renovável e custos competitivos, agregar valor, aproveitar os regimes de investimento disponíveis e, a partir daqui, alcançar os grandes mercados da região.

O Paraguai tem condições de ser a ponte entre a ASEAN e o Mercosul, mas esse posicionamento não surgirá espontaneamente. Exige presença, promoção, continuidade e uma parceria muito estreita entre os setores público e privado. O acordo abriu uma porta; agora precisamos ter a decisão e o preparo necessários para atravessá-la.

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